Comunicação do Presidente da JCAM na Assembleia da AJAN, Nairobi, setembro de 2025
O Diretor da AJAN, Padre Matambura, pediu-me para falar sobre estratégia. Passei algum tempo a tentar perceber o que se esperava de mim. Creio que a AJAN, encontrando-se numa encruzilhada, deseja ouvir o capitão que eu sou.
Permitam-me começar por uma anedota. Em 2016, tive a honra de participar na Congregação Geral da Companhia de Jesus. Este é o órgão deliberativo máximo da Sociedade, discernindo o caminho a seguir. Por exemplo, foi a última Congregação que lançou o discernimento sobre as quatro Preferências Apostólicas Universais: (1) mostrar o caminho para Deus através dos Exercícios Espirituais e do discernimento; (2) caminhar com os pobres, os excluídos do mundo e aqueles cuja dignidade foi ferida, numa missão de reconciliação e justiça; (3) acompanhar os jovens na criação de um futuro cheio de esperança; e (4) colaborar no cuidado da nossa Casa Comum.
Durante aquela Congregação, tivemos a graça — seguindo uma antiga tradição da Companhia de Jesus — de receber o Papa, que nos costuma confiar a nossa missão. Perguntámos-lhe: O que espera de nós? Mas o Papa Francisco surpreendeu-nos ao não responder diretamente à questão. Por três vezes, deu a mesma resposta: "Vós sois um corpo que discerne. Ide às periferias e discerni as respostas aos desafios deste mundo, e ide sempre mais além."
Perguntaram-me sobre as minhas estratégias, a minha visão e os meus projetos. Seria pretensioso da minha parte, uma vez que entrei no comboio da AJAN pelo caminho, formular estratégias inteiramente novas. Venho a esta reunião com a ambição de os ouvir e de os encorajar a serem cada vez mais "um grupo perspicaz", um corpo que se compromete a trabalhar de acordo com a sua visão, ao mesmo tempo que responde aos novos desafios que surgem.
O Nosso Contexto: Mudança de Época
Mais uma coisa que precisamos de considerar! Qual é o contexto geral em que vivemos? O Papa Francisco recorda-nos frequentemente que não estamos a viver apenas uma era de mudanças, mas uma mudança de época. Não se trata de simples ajustes superficiais, mas de uma transformação profunda que afeta a nossa forma de pensar, de viver e de nos organizarmos.
Neste contexto, convida-nos à coragem: “As situações que hoje vivemos apresentam-nos novos desafios, sem precedentes para muitos na história. Devemos ter a coragem de viver este momento como um tempo de graça, sem nos deixarmos vencer pelo medo.”
A sabedoria africana guia-nos com o provérbio: “Quando o vento muda de direção, é inútil ajustar a pena do pássaro; é preciso aprender a voar de novo.” Isto reflete a crença do Papa Francisco: não se trata apenas de gerir as transições, mas de aprender a viver neste novo tempo com uma perspetiva renovada.
Nesta breve apresentação, desenvolverei dois pontos principais: em primeiro lugar, descreverei a metodologia a seguir, que tomo de empréstimo a Christina Kheng; segundo, explorarei alguns caminhos para a reflexão sobre a nossa visão, desafios e o rumo que temos pela frente.
Não apenas uma “mudança de época”, mas uma “mudança de época”
a) Relendo uma História Agraciada
Kheng realça a importância de revisitar o caminho já percorrido. Desde a sua fundação em 2002, a AJAN apoiou milhares de pessoas que vivem com VIH, fortaleceu os centros de saúde jesuítas e formou centenas de agentes pastorais. O 20º aniversário da AJAN (2022) marcou um momento poderoso de reflexão: testemunhos de beneficiários, gratidão pela missão e memórias de desafios como o estigma, a falta de financiamento e a fadiga comunitária. Nunca se esqueça de onde veio!
b) Aprofundamento da Missão e da Identidade
Hoje, é crucial esclarecer o que define o cerne do carisma. Para a AJAN, a missão não é apenas combater uma doença, mas revelar a dignidade de cada pessoa, prestar apoio integral (corpo, alma, espírito) e incorporar a compaixão de Cristo no contexto africano.
Por exemplo, a pedagogia da GERAÇÃO FELIZ combina progressivamente a prevenção médica, o desenvolvimento humano, o acompanhamento espiritual e as competências de empreendedorismo.
c) Ouvir os sinais dos tempos
Olhando para o mundo de hoje, para a AJAN, os sinais dos tempos incluem:
- A crescente falta de interesse dos dadores em relação ao VIH/SIDA.
- As consequências da COVID-19, que expuseram a fragilidade dos sistemas de saúde africanos.
- Mudanças culturais entre os jovens, frequentemente expostos à pobreza, ao desemprego e à migração forçada.
- A crescente presença da IA.
d) Prioridades Discernentes
Neste momento, precisamos de fazer escolhas corajosas. A AJAN, nas suas recentes orientações, identificou várias áreas prioritárias:
- Formar e capacitar os jovens como agentes de mudança.
- Reforço das capacidades locais (centros de saúde, paróquias, escolas).
- Promovendo a justiça social e denunciando as desigualdades que alimentam a epidemia.
Com base em experiências positivas, como a criação de clubes AHAPPY em escolas e paróquias, onde os próprios jovens se tornam educadores de pares, precisamos de ir mais além.
e) Implementação e Planeamento Concreto
A definição de prioridades não chega. O discernimento precisa de ser transformado em ação. A AJAN traduziu as suas prioridades em programas tangíveis:
- Sessões de formação para professores e catequistas sobre educação para a vida e para a saúde.
- Workshops inter-religiosos para combater o estigma.
- Campanhas mediáticas (rádio, redes sociais) que visam a sensibilização dos jovens.
- A iniciativa “Juventude pela Vida”, que combina empreendedorismo, teatro, música e meios digitais para abordar questões críticas de saúde e valores cristãos.
f) Monitorização, Avaliação e Discernimento Contínuo
O planeamento é um processo vivo. A AJAN já integra mecanismos de avaliação regular:
- Relatórios anuais e partilha nas Assembleias Gerais.
- Avaliação de impacto dos clubes AHAPPY nas escolas (redução das gravidezes precoces, melhor conhecimento dos modos de transmissão).
A Assembleia Geral de setembro de 2025 é concebida como um momento de releitura e discernimento comunitário, para ajustar a missão à luz do Espírito.
Ao preparar isto, fiquei muito feliz por perceber que não estava a inventar nada de novo, mas sim a descrever práticas bem estabelecidas na nossa forma de proceder. No entanto, é importante aguçar a nossa consciência de que a nossa Rede é, acima de tudo, um corpo que discerne os apelos do Espírito de Deus para o mundo de hoje.
A questão
Em síntese, apresentei a metodologia a seguir até ao momento. No entanto, ainda precisamos de elaborar estratégias que vão ao encontro das necessidades do nosso tempo. Qual o estado atual da questão?
Há alguns anos, a AJAN sofreu uma grande alteração estrutural. Participei ativamente nessas discussões. Concebemos um novo modelo operacional com o objectivo de aumentar a capacidade dos vários centros da Conferência e, ao mesmo tempo, reduzir a dimensão da sede em Nairobi.
Nessa altura, a AJAN tinha uma forte presença em Nairobi, com imóveis e alguns fundos patrimoniais, e servia como um centro que competia com os centros de campo. O desafio era reduzir a burocracia e destacar os centros e os seus principais beneficiários de forma mais eficaz.
Esta transição foi difícil porque o gabinete de Nairobi sentiu que foi sacrificado. Considerando a nossa situação atual, acha que esta mudança foi necessária? Este modelo está a funcionar bem? Sim.
Martin Reeves, presidente do BCG Henderson Institute, afirmou: “Um bom líder já não dá instruções — faz as perguntas certas.” Doravante, falando de estratégias, na minha opinião, a questão fundamental para a AJAN é:
“Que fórmula devemos aplicar para, por um lado, fortalecer a nossa Rede e, por outro, fortalecer os projetos locais? Ou seja, como colocamos os beneficiários no centro das nossas estratégias?”
Uma avaliação do nosso modelo revela que, em geral, funciona de forma eficaz. No entanto, para se adaptar ao mundo atual, precisa de se tornar mais participativo, digital, sustentável e colaborativo, com Nairobi a servir como catalisador e não como concorrente.
Pilar 1. Consolidar o Modelo Descentralizado
- Reforçar as capacidades locais proporcionando formação adicional às equipas do centro em gestão de projetos, angariação de fundos e inovação social.
- Autonomia financeira progressiva: incentivar cada centro a desenvolver iniciativas de microfinanciamento (parcerias locais, atividades geradoras de rendimento).
- Sinodalidade: estabelecer espaços regulares para a tomada de decisões conjuntas dentro dos centros e entre Nairobi e os centros para evitar um sentimento de competição e reforçar a coesão da rede.
Pilar 2. Colocar verdadeiramente os beneficiários no centro
- Escuta contínua: desenvolver mecanismos participativos (uma comunidade de práticas, inquéritos digitais e comités de jovens beneficiários) para garantir que as vozes locais influenciam diretamente as escolhas estratégicas.
- Visitas de campo: acompanhe o impacto nos beneficiários em tempo real e adapte os programas em conformidade.
- Inovação social: incentivar os próprios beneficiários a propor e liderar microprojetos, com o apoio da rede.
Pilar 3. Alavancar o contexto global atual
- Transformação digital: desenvolver plataformas online (formação, acompanhamento espiritual, advocacia) para expandir o alcance da rede para além das fronteiras físicas.
- Advocacia e Angariação de Fundos: colaborar com outras redes jesuítas (JENA, Safeguarding, JRS, Fe y Alegría, etc.) e instituições académicas para fortalecer a investigação e a visibilidade.
- Sustentabilidade ecológica e social: integrar sistematicamente as dimensões ecológicas (Laudato Si’) nos projetos locais, alinhando com as expectativas dos doadores e dos jovens.
Pilar 4. Repensar o papel do Gabinete de Nairobi
- Centro estratégico: Nairobi deve servir como um centro de apoio (especialização técnica, comunicação, advocacia internacional, angariação de fundos), sem substituir os centros.
- Torre de Vigilância: verificar narrativas e relatórios financeiros de acordo com os requisitos dos doadores, chamar a atenção para casos periféricos e negligenciados, promover e fomentar a solidariedade e a partilha entre centros.
Obrigado
Posto isto, gostaria de vos assegurar a minha disponibilidade e o meu apoio nesta peregrinação, que começa aqui nesta Assembleia de 2025.
De, Fr. José Minaku, SJ,
President of JCAM.


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