Primeira leitura: Êxodo 12:1-8, 11-14 Salmo responsorial: Salmos 116:12-13, 15-16bc, 17-18 Segunda leitura: Primeira Carta aos Coríntios 11:23-26 Aclamação ao Evangelho: João 13:34 Evangelho: João 13:1-15

A reflexão da Quinta-feira Santa é feita por Pe. Cornelius Apili, SJ., Pároco responsável pela Quase-Paróquia São João Paulo II em Grafton, Freetown, Serra Leoa.
Há um sentimento de insatisfação entre alguns católicos que, sentindo-se desconectados, questionam por que a celebração pascal pode parecer repetitiva e sem significado. Muitos daqueles que abandonaram a fé não se lembram da alegria e da importância que essas celebrações tinham outrora como atos de auto-sacrifício. Isso levanta preocupações, pois se não se dedica tempo para refletir sobre o propósito e a profundidade das tradições de fé, corre-se o risco de perder o seu significado. Lembro-me de uma procissão de Sexta-feira Santa em Grafton, Freetown, quando um estranho que passava fez o sinal da cruz em sinal de respeito, destacando o poder silencioso desses rituais.
Fiquei profundamente comovido com o gesto daquele desconhecido. Outra memória vívida é de uma Sexta-feira Santa em Kwabenya, Accra, onde testemunhei paroquianos vestidos de preto e vermelho — uma expressão cultural poderosa e única do Tríduo Pascal. Essas experiências me fizeram refletir sobre como ações vividas e práticas culturais transmitem o significado dessas celebrações, levantando a questão de por que esse significado sentido nem sempre se reflete em nossas vidas diárias.
A celebração de hoje marca o início da nossa observância anual do mistério pascal, uma experiência que nos confronta com nossas fraquezas e limitações humanas. Como Jesus Cristo, que nunca citou as Escrituras aos seus discípulos, mas encontrou uma forma de mostrar o que significa amar através do serviço e de viver plenamente a profundidade de sua mensagem. Diz-se que “falar é fácil”, mas a ação exige mais de cada indivíduo em questões de fé. Como eu gostaria que pudéssemos retornar às experiências e à celebração do Tríduo Pascal do ano passado, para avaliar e provocar uma resposta a estas questões: O que é verdadeiramente novo para mim? O que mudou em mim? Com o que estou lutando quando se trata de tornar esta celebração aquilo que ela deve ser? Uma experiência de amor que fala ao coração.
Obviamente, para nós, sacerdotes, é uma celebração e um lembrete da instituição da Sagrada Eucaristia — e, portanto, do nascimento do sacerdócio. Em outras palavras, um lembrete de quem somos como servos na vinha. Essa ideia de liderança servidora é frequentemente esquecida ao longo de nossa jornada como sacerdotes, chamados entre o povo de Deus para liderar, não como super-humanos, mas como pessoas que passaram por experiências de fragilidade e estão prontas para se tornar portadores de misericórdia em um mundo que já não compreende o verdadeiro significado da misericórdia.
Em vez de nos prender aos ritos e rituais que a celebração de hoje exige, talvez possamos nos aproximar um pouco mais do que somos chamados a seguir e emular. A celebração de hoje é um chamado profundo para servir sem medir o custo. Um lembrete de que somos seguidores e não líderes, não importa o quanto tenhamos conquistado em nossa jornada. E que o verdadeiro significado do sacerdócio, para aqueles que são ordenados, e o significado do serviço verdadeiro, para os fiéis leigos, encontra-se na presença sincera junto ao povo de Deus. Às vezes, prestamos atenção especial ao Tríduo Pascal e esquecemos a mensagem que ele transmite. É simplesmente a história de alguém que escolheu se oferecer por todos nós.
Portanto, nossa história e experiência podem ser sinônimas à do perspicaz fotógrafo Kevin Carter. Em sua tentativa de fazer história fotografando uma criança faminta e um abutre esperando próximo no Sudão, ele ficou conhecido como o “segundo abutre” durante um programa de rádio porque não ajudou a criança, perdendo sua humanidade em sua profissão. Não importa nossa profissão, se não podemos ser humanos, perdemos a verdadeira mensagem por trás do Tríduo Pascal.


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