Primeira Leitura: Isaías 50:4-7 Salmo Responsorial: Salmo 22:8-9, 17-18a, 19-20, 23-24; Segunda Leitura: Filipenses 2:6-11; Aclamação ao Evangelho: Filipenses 2:8b-9 Evangelho: Mateus 26:14-27:66

A reflexão de hoje é de Fr. Eugene Goussikindey, SJ., Diretor, Centre de Recherche d’Étude et de Créativité (CREC), Benim.
A celebração do Domingo de Ramos e da Paixão nos introduz plenamente no desenrolar de toda a Semana Santa. Desde o início, a estrutura da liturgia apresenta duas cenas que parecem inconciliáveis. Em vez de tentar harmonizá-las, ganhamos mais permitindo que elas dialoguem entre si. A procissão destaca o tema central da condenação — isto é, a realeza. A Paixão, por sua vez, apresenta o julgamento que leva à condenação, em todas as suas etapas, desde a traição dos discípulos até a multidão, passando pelas autoridades judaicas e romanas. O veredicto é expresso na inscrição de Pilatos: « Jesus, Rei dos Judeus », e selado pela fé do centurião: « Jesus, Filho de Deus ».
A celebração litúrgica abre-se com o Evangelho segundo Mateus (21:1–11). Mateus descreve um acontecimento no qual Jesus toma a iniciativa. Ele manda buscar um jumento e o seu jumentinho para uma espécie de entrada solene em Jerusalém. Ao fazer isso, ele mostra que está consciente de que “a sua hora” chegou, que a sua missão de redenção está alcançando o seu cumprimento. Com esta entrada solene, todos os olhares se voltam para ele; contudo, os observadores atentos percebem um contraste no cenário: ele monta um jumento. O herdeiro de Davi, aclamado pela multidão, carece do esplendor e da grandeza que cercavam o grande rei cujas promessas ele encarna. É através da liturgia da Paixão que o significado mais profundo da sua realeza é revelado: mais do que um rei, ele é um “servo” que deliberadamente escolheu identificar-se plenamente com o povo. Sem se apegar à sua igualdade com Deus, ele torna-se o servo da vontade do Pai servindo seus irmãos e irmãs.
Neste contexto, a graça a ser buscada emerge de seu lugar na procissão entrando em Jerusalém. Ele não está nem à frente nem atrás da multidão. Ele está no centro, com pessoas caminhando tanto à sua frente quanto atrás dele. Neste domingo, somos convidados a pedir a graça de “estar com”: ser participantes e não meros observadores distantes. Apesar da inconstância do povo, Jesus permanece no meio deles. Ele não nos salva sem nós.
O clamor da multidão, “Hosana ao Filho de Davi”, torna a entrada em Jerusalém marcante. Ele ecoa o louvor expresso no Salmo (23/24:7–8): “Levantem-se, ó portas, ergam-se, ó portas antigas, para que entre o Rei da glória. Quem é este Rei da glória? O Senhor, forte e poderoso, o Senhor, poderoso em batalha.” Esta aclamação reflete um povo aguardando a manifestação final da salvação na cidade de Davi.
Em Israel, a salvação é obra do Messias, o escolhido de Deus. A Carta de São Paulo aos Filipenses revela quem é realmente este Filho de Davi que entra em Jerusalém: “Cristo Jesus, que, existindo na forma de Deus, não se apegou à igualdade com Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens.” Agora entendemos por que o Senhor, o Rei da glória, monta um jumento. É por escolha, em solidariedade com aqueles que Ele não tem vergonha de chamar de seus irmãos e irmãs. Esta postura de serviço, nascida do seu esvaziamento, conduz à sua exaltação acima de todos, e à adoração de todos nos céus, na terra e debaixo da terra: “Jesus Cristo é Senhor, para a glória de Deus Pai.”
A Paixão é a plena manifestação deste esvaziamento na condição de servo. Por meio dela, vemos que Jesus se tornou “como nós em tudo”, partilhando o que perturba o coração humano: sofrimento e morte. Sua resposta ao sofrimento, à traição e à condenação revela uma profunda sensibilidade à provação: Jesus não esconde seus sentimentos, mas permanece digno na adversidade. Perante este homem sofredor, Pilatos declara: “Este é Jesus, o Rei dos Judeus”, enquanto o centurião professa: “De fato, este era o Filho de Deus.”
Assim, neste domingo, do “Hosana, Filho de Davi” da procissão de Ramos até “De fato, este era o Filho de Deus”, seguimos um caminho contínuo — um único fio de uma missão levada até o fim. Somos convidados a não ser espectadores, mas participantes ativos no evento da nossa salvação. Como um prólogo, o Domingo de Ramos e a Paixão nos apresentam toda a jornada da Semana Santa.


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