EMAIL US AT ajan@jesuits.africa
LIGUE AGORA (+254-20) 3884 528
DOE PARA NOSSAS CAUSAS

Reflexão da Quarta-feira de Cinzas: « Voltem para Mim com todo o vosso coração »

Primeira Leitura: Joel 2:12-18, Salmo Responsorial: Salmos 51:3-4, 5-6ab, 12-13, 14 e 17 Segunda Leitura: 2 Coríntios 5:20 – 6:2 Verso Antes do Evangelho: Salmos 95:7a-8a Evangelho: Mateus 6:1-6, 16-18

A reflexão sobre a leitura de hoje é feita por Fr. Rampe Hlobo, S.J., Diretor, JEO.

A Quarta-feira de Cinzas não é exatamente um convite suave. À medida que as cinzas são traçadas nas nossas testas, a Igreja confronta-nos inequivocamente com a verdade de quem somos e a urgência de quem devemos nos tornar. « Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás. » Estas palavras despojam qualquer ilusão que possa existir. Lembram-nos que o poder, a riqueza e os privilégios são temporários. Lembram-nos que a história julgará como usamos o que nos foi confiado. Começamos a Quaresma como um tempo de oração, jejum e reconciliação — com Deus, uns com os outros e com o resto da criação de Deus. Mas estes não são ideais abstratos.

A partir da leitura das Escrituras de hoje e até este momento de reflexão, o profeta Joel clama:

« Voltem para Mim com todo o vosso coração, jejuando, chorando e lamentando. Que os vossos corações sejam quebrantados, e não as vossas vestes rasgadas; voltem para o Senhor vosso Deus, pois Ele é ternura e compaixão… » (Joel 2:12–18)

Israel tinha-se afastado. O povo permitiu que a injustiça e a complacência corroessem a sua relação com Deus. Joel exige um coração quebrantado — um coração atravessado pelo sofrimento dos outros e desperto para a santidade de Deus, e não apenas para gestos simbólicos.

Hoje, essa mesma voz dirige-se a nós para rasgar os nossos corações, ou seja, permitir que Deus quebre a dureza que nos protege das verdades desconfortáveis e permitir que o clamor dos pobres perturbe o nosso conforto espiritual. É um chamado para reconhecer que o pecado não é apenas uma fraqueza pessoal, mas também uma realidade social — enraizada em sistemas, políticas e arranjos económicos que excluem e exploram, especialmente aqueles nas periferias existenciais da sociedade: os migrantes, os refugiados, os pobres, etc.

No Evangelho de Mateus, Jesus intensifica o desafio: « Quando deres esmolas… quando orares… quando jejuares… não ostentes as tuas boas ações diante dos outros. » (Matt. 6:1–6, 16–18)

Ele expõe a hipocrisia religiosa: uma piedade que não confronta a injustiça e suas estruturas de pecado é vazia. A oração que ignora o sofrimento é autorreferencial. A oração — uma oração mais intensa — neste tempo deve nos ajudar ou nos conduzir a resistir à idolatria da riqueza e do poder, permitindo-nos destronar cada falso deus — corrupção, ganância, nacionalismo e indiferença. Nossa oração deve também interceder pelos marginalizados, pelos pobres e pelos que sofrem, ao mesmo tempo que nos capacita a cuidar de suas necessidades por meio da esmola.

O jejum, como observância da Quaresma, deve ser um protesto e não um exercício de auto-satisfação. É uma recusa em participar sem questionamento em padrões de consumo excessivo enquanto milhões são privados dos elementos essenciais da vida. É uma recusa em normalizar a desigualdade obscena, mas uma escolha de viver simplesmente para que outros possam simplesmente viver. Nosso jejum, como o Papa Francisco nos lembra frequentemente, deve beneficiar os outros e nos aproximar do espírito do Bom Samaritano — aquele que se inclina sobre seu irmão ferido, cuida de suas feridas e assume a responsabilidade pelo seu cuidado. Isso também deve orientar nossa prática da esmola durante a Quaresma: não um gesto simbólico, mas uma expressão concreta de compaixão, solidariedade e amor que restaura a dignidade e a esperança daqueles que estão em necessidade. Um jejum que não conduza à solidariedade com os necessitados e menos afortunados do que nós é teatral.

Ao iniciarmos a Quaresma, também refletimos sobre a reconciliação, especialmente em um mundo profundamente ferido e dividido como o nosso. Trata-se de uma reconstrução que exige que reparemos o que o pecado fraturou — as relações entre os povos, entre os líderes e o povo confiado aos seus cuidados, entre a humanidade e a própria terra — a nossa casa comum. Qualquer coisa menos que isso reduz a Quaresma a um ritual.

Esta temporada penitencial da Quaresma não é, portanto, um tempo de espiritualidade privada desvinculada da história. É uma temporada de julgamento e graça. É um tempo em que Deus expõe o que desumaniza e chama àquilo que restaura a vida. Chama-nos a refletir sobre o Escândalo da Desigualdade: a crescente diferença entre os extremamente ricos e aqueles que vivem na pobreza abjeta não é um subproduto infeliz do desenvolvimento. Não é meramente um problema social. É uma profunda crise moral e ética que confronta a humanidade e contradiz o Evangelho.

Em todo o nosso continente, o desemprego juvenil aumenta enquanto a riqueza se concentra nas mãos de poucos, com condomínios de luxo a expandirem-se enquanto os assentamentos informais se multiplicam a um ritmo alarmante. Vastíssimos recursos são extraídos do solo africano, e ainda assim as comunidades de onde esses recursos provêm permanecem, na melhor das hipóteses, empobrecidas e, na pior, mergulham em pobreza abjeta, ou são forçadas a deslocar-se. Isso não é acidental. É estruturado. Tal desigualdade é uma forma de violência. Limita oportunidades. Rouba esperança e mata.

O tema de 2026 da African Union (AU) sobre acesso a água potável e saneamento confronta-nos com uma verdade devastadora: mais de 411 milhões de pessoas em África não têm acesso a água segura. A água — a mais necessária à vida e à dignidade — permanece fora do alcance de centenas de milhões. Isto não é meramente uma estatística de desenvolvimento; é um sinal de pecado estrutural.

Em muitas situações, tem sido uma questão de líderes escolhendo — parafraseando Thomas Sankara — champanhe para alguns em vez de água potável para todos. Quando crianças bebem água contaminada, o seu sofrimento expõe as nossas prioridades distorcidas. Quando comunidades carecem de água limpa, a sua dignidade dada por Deus é ferida. Negar o acesso a água potável não é apenas uma falha política; é uma violação da dignidade humana e uma grave injustiça moral.

A Quaresma nos obriga a falar a verdade sobre governança e corrupção — seja em gabinetes governamentais, conselhos corporativos ou acordos internacionais. Corrupção não é ser esperto ou astuto. Não é uma inevitabilidade cultural. É um pecado. É roubo dos pobres. Quando fundos públicos destinados a serviços sociais para os pobres ou para a saúde desaparecem, crianças morrem. Quando recursos alocados para infraestrutura de água são desviados, comunidades permanecem sedentas. Quando contratos enriquecem alguns enquanto endividam nações, gerações futuras são sobrecarregadas.

Tanto os governos quanto setores da indústria privada têm responsabilidade. Modelos de desenvolvimento extrativos que exploram a terra, deslocam comunidades e degradam ecossistemas são incompatíveis com o Evangelho. A destruição ambiental não é dano colateral; é uma falha moral.

Corrupção e exploração ambiental estão interligadas. Elas prosperam onde a responsabilidade é fraca e onde o lucro é valorizado acima das pessoas. Criam o que a Catholic Social Teaching (CST) chama de “estruturas de pecado” — redes de injustiça que moldam o comportamento e normalizam ou perpetuam desigualdades e injustiças. Devemos passar de estruturas de pecado para estruturas de graça.

As estruturas de graça são transparentes e priorizam o bem comum. Elas garantem acesso à água, saneamento, saúde, educação e trabalho digno. Protegem os ecossistemas como bens sagrados, e não como mercadorias para exploração imprudente. Asseguram que o crescimento econômico não sacrifique os mais vulneráveis.

A mudança estrutural, no entanto, começa com uma conversão espiritual. O profeta Ezequiel — de quem ouviremos na Vigília Pascal — proclama uma promessa que ressoa com uma urgência profética:

« Derramarei sobre vós água limpa, e sereis purificados… Darei a vós um coração novo; e porei em vós um espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e darei um coração de carne em seu lugar. » (Ezequiel 36:24–28)

Deus não promete uma reforma cosmética. Deus promete uma renovação radical — um coração novo e um espírito novo. Um coração de pedra permanece indiferente às estatísticas. Ele justifica a desigualdade e legitima o excesso ou a acumulação pecaminosa. Ele tolera a corrupção e a injustiça. Um coração de pedra pode receber cinzas e permanecer inalterado. Um coração de carne, no entanto, treme diante da injustiça e recusa normalizar o sofrimento. Exige que as políticas reflitam compaixão e reconhece que a degradação ecológica é uma desordem espiritual.

A crise ecológica que confronta a África — escassez de água, desertificação, poluição, desmatamento — é inseparável da injustiça social. Os pobres sofrem primeiro e mais com a degradação ambiental. Quando os rios estão contaminados, quando a terra é devastada, quando os padrões climáticos mudam de forma imprevisível, são os pobres que pagam o preço mais alto.

A Quaresma deve, portanto, incluir uma conversão ecológica. Deve desafiar-nos a reconsiderar os padrões de extração e consumo. Deve levar as comunidades de fé a advogar por políticas sustentáveis e gestão responsável. Cuidar da criação não é opcional; é parte integrante do discipulado. Reconciliarem-se com a criação é reconhecer que a Terra não é matéria-prima para lucro sem fim, mas um dom sagrado confiado aos nossos cuidados.

Ao iniciarmos a temporada penitencial da Quaresma, somos chamados a rejeitar toda forma de superficialidade e a empenhar-nos numa conversão genuína. O sofrimento de milhões, incluindo a sede dos 411 milhões de africanos sem acesso a água segura, exige urgência. O escândalo da corrupção exige urgência. A degradação dos ecossistemas exige urgência.

Deus não é indiferente. Deus chama. Deus julga. Deus restaura.

« Voltem para Mim com todo o vosso coração. » Isto não é uma sugestão. É um chamado.

Que a nossa oração destrone os falsos deuses.

Que o nosso jejum exponha a injustiça.

Que a nossa reconciliação reconstrua as comunidades

Que o nosso arrependimento desmonte as estruturas de pecado e dê origem a estruturas de graça.

E à medida que avançamos rumo à Páscoa, que nos apeguemos à promessa de água limpa e de um coração novo. O Deus que derrama água limpa deseja um continente renovado na justiça. O Deus que substitui corações de pedra deseja líderes íntegros e comunidades solidárias.

As cinzas que recebemos hoje são um sinal de mortalidade — mas também de missão. Somos pó, sim. Mas pó sobre o qual sopra o Espírito de Deus.

Que esta Quaresma seja uma temporada de conversão corajosa — pessoal, social e ecológica. Que a África se levante com um coração de carne. E que a justiça flua como água viva por todo o nosso continente.

Pe. Matambura Ismael, SJ

VIEW ALL POSTS

INSCRIÇÃO NA NEWSLETTER

Inscreva-se agora para receber atualizações por e-mail sobre os acontecimentos atuais na AJAN África.

pt_PTPortuguês