Por Caleb Mwamisi

Certa vez, algumas mulheres de uma zona rural do Quénia juntaram-se com o único objetivo de se libertarem e às suas famílias dos grilhões da pobreza. Tiveram a sorte de uma freira católica, Anna, que trabalhava na igreja do povoado, ter concordado em se juntar a elas. Ela iria assumir papéis fulcrais, tais como a direção dos projetos que incluíam casas de aluguer e uma padaria. Ela recolhia o aluguer, viajava para Nairobi para comprar farinha de pastelaria, entre outras tarefas. As mulheres ficavam atrás e limitavam-se a outras tarefas periféricas.

Os projetos de desenvolvimento são na sua maioria concebidos tendo em mente o bem maior da sociedade. São formulados em função de necessidades ou problemas que requerem uma solução para aliviar as condições de vida de um povo. Por conseguinte, nascem de uma convicção e intenção de fazer o bem, desde o início. No entanto, a forma como os projetos são planeados e executados determina se irão ser bem-sucedidos, ou se falham rotundamente. Esta tem sido a razão de ser da série de formações que os membros da rede AJAN têm vindo a beneficiar de modo regular desde junho de 2020.

As mulheres do meio rural da história de abertura, não diretamente envolvidas no seu próprio projeto, perderam conhecimentos e experiência essenciais e pagariam caro por isso quando a freira foi chamada para uma nova responsabilidade em Roma. “Como nos pode deixar? Sois como a nossa mãe”, observaram no momento da sua partida. Os projetos fracassaram desgraçadamente porque elas não conseguiram encontrar farinha acessível ou mesmo peças sobresselentes para um camião utilizado para o transporte de pão.

Embora tivessem uma boa visão do que queriam, as senhoras não conseguiram emancipar-se, a competência não lhes foi transferida sob a forma de informação. As suas margens de lucro diminuíram e a sua diocese assumiu os projetos cuja propriedade lhe foi por elas cedida. Anna não as tinha informado quanto à fonte de farinha acessível para a sua padaria e de peças sobressalentes. Também viram a realizar cobranças de renda mal coordenadas, levando à saída de inquilinos frustrados. Claramente, elas não estavam prontas para a sua partida. Os formadores, Dominic Syuma e Paschalia Mbutu, utilizaram este exemplo para ilustrar as prováveis armadilhas dos métodos de desenvolvimento que não são meticulosamente articulados para inspirar nos beneficiários a ação desejada.

“Porque acham que a Irmã fez todo o trabalho em vez das mulheres?”, questionou Dominic. “A Irmã teve de executar as tarefas por elas porque não estavam em condições de o fazer”, apontou o P. Vedaste do Yezu Mwiza. “A freira sentiu-se mais exposta e apresentou-se como tal ao grupo que, por sua vez, se manteve na sombra em vez de revelar as suas capacidades e, pelo contrário, deixou tudo a seu cargo”, disse Enos Matangwe Sikoyo, do Programa de Desenvolvimento de São José, em Kangemi, Nairobi. “As pessoas não imaginavam que a Irmã pudesse um dia deixá-las. Praticamente não se envolveram ou procuraram ser iniciadas nas tarefas que ela tinha estado a realizar”, acrescentou o P. Ismael.

“Trata-se da perceção que temos das pessoas que acompanhamos. Tem de ser correta”, revelou a Dra. Paschalia Mbutu. Ela passou a aprofundar a necessidade das organizações ou indivíduos terem o cuidado de não se tornarem ‘ajudantes’, mas de estimularem capacidades e permitirem que as pessoas resolvam os seus próprios problemas, pois é isso que garante o triunfo.

Os participantes continuaram a beneficiar de novas abordagens na implementação de projetos. Estão a aprender mais sobre “como fazer”, tendo os seus olhos abertos para “como não fazer”. As sessões são interativas e uma ajuda valiosa durante este período.

“As pessoas têm o potencial para lidar com os seus desafios”, disse a Dra. Paschalia. “Não devemos assumir os projetos, devemos antes tornar-nos facilitadores para a comunidade. As pessoas não são inúteis. Têm recursos”, Dominic encerrou assim o encontro. A próxima sessão de formação ficou agendada para 24 de julho de 2020.

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